sábado, 24 de julho de 2010

A CORRIDA DO OURO

Quando os primeiros exploradores chegaram ao Brasil, o maior objeto de desejo era o ouro, metal precioso o bastante para manter o fausto das cortes européias. As excursões pioneiras pelo litoral e até pelo interior foram frustrantes. Nada parecia haver naquela terra além de natureza pródiga, solo fértil e índios pagãos. Qualidades estas, aliás, para as quais os exploradores davam pouca ou nenhuma importância.

Nas margens do Tripuí foram encontradas as pepitas de ouro que mudaram a história do Brasil

Qual das montanhas de Minas seria Sabarabuçu?
 
Foi no contato com os índios que os estrangeiros se deram conta que algo de muito valioso se escondia nos recônditos do Brasil. Não faltavam histórias sobre uma terra distante, onde o ouro brotava no leito dos rios. No alto de suas montanhas podiam ser retiradas pedras de magníficas cores, verdes e azuis... O nome de uma dessas serras era Sabarabuçu, mas havia outras, muitas outras.
A Corte Portuguesa desincentivava as jornadas pelo interior, com receio de que a corrida lhe tirasse o controle sobre o que viesse a ser descoberto. Mas não foi possível segurar a força das lendas, que finalmente provariam ser a mais pura verdade. A primeiras expedições, conforme consta em alguns estudos, se deram já no séc. XVI. Não foram bem sucedidas e muitos aventureiros não voltaram para contar o que viram na terra virgem e hostil. Somente no final do século seguinte se daria o achamento das primeiras e tímidas lavras de metais.
"Bandeira" era o nome das grandes incursões pelo país naqueles tempos. As "bandeiras" que penetraram Minas inicialmente partiam do planalto de Piratininga, em São Paulo. A de Fernão Dias, em 1674, tinha por finalidade encontrar Sabarabuçu, o Eldorado. Foram sete longos anos de trabalho árduo, nos quais poucas pedras foram encontradas. No entanto, a jornada revelou grande parte do imenso território. Dos pousos para descanso das tropas de Fernão Dias surgiriam mais tarde núcleos povoados, cujo papel foi fundamental para a colonização do estado.
Fernão Dias morreu em 1681, nas proximidades da cidade de Caeté, talvez frustrado por não ter encontrado as esmeraldas que buscava. Talvez tivesse pensado que o ouro e as pedras estavam mais ao norte, ainda mais distantes nas entranhas do Brasil. Se pensou assim estava errado. Mal sabia ele que tinha alcançado Sabarabuçu e que só faltou procurar mais um pouquinho. Seus companheiros continuariam seu trabalho, entre eles seu filho Garcia Rodrigues Paes e seu genro Borba Gato, que abriram importantes caminhos para o interior.
 
Ouro faz brotar do chão uma história
Produção de ouro nas Minas Gerais
1697
1699
1705
1715
1739
1744
1754
1764
115 Kg
725 Kg
1,5 Ton
6,5 Ton
10 Ton
9,7 Ton
8,8 Ton
7,6 Ton
O tão sonhado ouro por fim se acharia nos fins daquele século XVII. E era muito, muito ouro, opulentas minas. O mais provável é que o descobridor tenha sido um paulista, Antônio Rodrigues Arzão, que não pôde concluir seu feito por causa da animosidade dos índios que caçava. Bartolomeu Bueno de Siqueira assumiu, com as informações que recebeu, a busca pelo metal. Descobriu em 1694, nos arredores de Itaverava, jazidas cujas amostras de ouro foram levadas para o Rio de Janeiro, para apreciação do Governador, que tinha jurisdição sobre todas as descobertas.
Pico do Itacolomi, referência para os primeiros bandeirantes (Mariana - MG)

Câmara e Cadeia (Mariana - primeira capital da província das Minas Gerais)

Mina de ouro (Ouro Preto - MG)Belas paisagens no caminho do ouro (Cachoeira do Campo - MG)
 
Em 23 de junho de 1698, a "bandeira" comandada por Antônio Dias de Oliveira chegou aos pés de um pico, chamado Itacolomi. Ali seriam lançados os fundamentos de uma fabulosa cidade, por cujas ruas percorreriam o ouro e os ideais de liberdade: nascia a inesquecível Vila Rica (atual Ouro Preto), que foi capital da província até o final do século XIX. Em 1709 era criada a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. No início da mineração, o ouro encontrado no leito dos rios obrigou os garimpeiros a viverem como nômades. Esgotada a lavra partiam para outras mais lucrativas. A população encontrava-se bastante dispersa. Os imigrantes vinham de todo lugar, ansiosos por fazer riquezas naquele novo Eldorado. Quando o ouro começou a ficar escasso nos rios, a extração passou para as encostas das montanhas. O trabalho de cavar exigiu que o minerador se fixasse. As minas foram surgindo e junto a elas os núcleos povoados. O ouro parecia brotar em todo lugar. Sabarabuçu, Cataguás ou Cataguases, Caeté, do Rio das Mortes, Itambé, Itabira, Ouro Preto, Ouro Branco etc. Eram enfim muitas minas, ou melhor dizendo, "Minas Gerais". Já em 1701 o nome começou a ser usado, sendo oficializado em Carta Régia de 1732.
A ambição dos imigrantes origina o primeiro grande conflito pelo ouro: a guerra dos emboabas, que envolveu paulistas e demais imigrantes. Em decorrência disso, a Coroa Portuguesa criou em 1720 a Capitania das Minas, desmembrada de São Paulo. Passou a controlar duramente a extração, recolhendo 20% de tudo que era produzido, o chamado quinto. As atividades agrícola e manufatureira praticamente não existem. Apenas uma agricultura de subsistência e criação de pequenos animais, como o porco. Os demais produtos chegam às regiões mineradoras no lombo de burros. A província cresce rapidamente e com ela a carência por produtos de primeira necessidade. Os mercadores ambulantes também se estabelecem nos povoados. Surge o primeiro grande mercado consumidor do Brasil. Tudo é comercializado, de escravos africanos a artigos importados da Europa. A abertura do Caminho Novo, por Garcia Rodrigues Paes, intensificou ainda mais a troca de mercadorias, ligando o Rio de Janeiro às regiões mineradoras. O ouro fez com que a capital da Colônia se transferisse de Salvador, na Bahia, para a cidade do Rio de Janeiro em 1763.
A intensa mistura de pessoas tão diferentes em um mesmo ambiente, impulsionadas pelo poder do ouro, deu início a uma nova sociedade. Portugueses, paulistas, negros, índios e outros imigrantes se misturavam e formaram um mosaico cultural. Até então vigorava no Brasil a rígida sociedade dos engenhos, com sua estrutura paralítica, cujos rumos eram ditados pelos Senhores, principalmente os das grandes fazendas de açúcar. A incipiente e efervescente sociedade mineira tinha características mais democráticas, os padrões de conduta não eram tão rígidos e a ascensão social era mais fácil. Até mesmo um escravo, numa bateada feliz, podia enricar e comprar sua liberdade. A combinação da vida urbana com a atividade mineradora cria novos ofícios, desenvolvendo um novo embrião de classe média. São escultores, músicos, tropeiros, pintores, marceneiros, alfaiates, entalhadores, advogados, poetas... Um Estado Moderno nasce no Brasil, com administração burocrática, fiscalização e arrecadação de impostos.
 Os diamantes também escreveram a história de Minas (Diamantina - MG)

Igreja São Francisco de Assis, obra-prima do Barroco Mineiro (Ouro Preto - MG)Igreja N.Sra. do Ó, pequena jóia do Barroco Mineiro (Sabará - MG)

Teto da Igreja São Francisco de Assis (Ouro Preto - MG)
Nesse ambiente tornou-se possível o surgimento de um movimento artístico e cultural sem precedentes no Brasil. As vilas se tornam prósperos redutos, onde floresce uma rica arquitetura. As artes tomam impulso, lembrando em muito o renascimento europeu. Vigora o mecenato e mestres como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manuel da Costa Ataíde encontram o ambiente perfeito para exercerem sua genialidade. O Barroco Mineiro impressiona por seu esplendor, sua força e dramaticidade. É uma arte de fervor religioso, teatral e encontrou em Minas o cenário perfeito para se estabelecer.

MINAS GERAIS

Contar a história de Minas é contar a história das pedras, da saga e da ambição de seus homens. E olha que é um relato muito antigo e também pouco conhecido, já que a presença humana é calculada em ousados 12 mil anos. Mais antigo que isto só suas pedras, aliás muitas, que fazem deste o estado mais rico em reservas minerais da nação. 

Minas Gerais é o quarto maior estado do Brasil, com 586.624 Km2, superior em área à França e à Bélgica juntas. Mais da metade de seu território tem altitudes superiores a 600m. A montanha está intimamente ligada à alma de seus habitantes, os mineiros, um povo altivo, contemplativo, introspectivo e nem por isso menos acolhedor.
As serras serpenteiam por todas as direções e suas reservas minerais são incalculáveis, com destaque para o ferro, ouro, alumínio, manganês, zinco, quartzo, feldspato, nióbio, níquel... A agropecuária também tem presença decisiva na economia mineira, principalmente com a produção de leite e seus derivados. Agora uma nova porta se abre, o turismo, que encontra farto material natural e cultural nas várias regiões das Minas Gerais.
Montanhas de Ouro Preto e Profeta Joel (Aleijadinho)

A capital Belo Horizonte

Parque Nacional de Itatiaia (Itamonte, sul de Minas)
O estado também é famoso por sua culinária simples, curiosa e deliciosa. Tanto é assim que conquistou o Brasil. Só para citar alguns exemplos: lombinho de porco assado, o tutu de feijão com torresmo e linguiça, o feijão tropeiro com couve refogada, a galinha ao molho pardo... Não podemos esquecer os quitutes: queijo de minas, broa de milho, doce de leite... Rica, tradicional, histórica: assim é a cozinha mineira, cujas receitas são encontradas em caderninhos às vezes seculares.
Gruta de Maquiné (Cordisburgo - MG)
Tempos Remotos
Em 1835 o dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-80), escolheu Minas como seu lugar para viver. Quis o destino que este médico, botânico e zoólogo se estabelecesse às margens de uma lagoa de águas milagrosas, que eram inclusive exportadas para a metrópole portuguesa. Na Freguesia de Nossa Senhora da Saúde da Lagoa Santa Lund fez preciosas descobertas acerca dos primeiros habitantes da região. Os primeiros mineiros, poderíamos dizer.
As muitas grutas da região, como as hoje famosas Lapinha e Maquiné, eram pouco exploradas e não despertavam interesse dos escassos estudiosos. Ainda sabemos pouco sobre os homens primitivos, suas crenças e seus modos de vida. Entretanto Lund deu sua contribuição valiosa para que a história começasse a ser contada. Suas incursões pelas grutas e cavernas trouxeram das sombras indícios irrefutáveis de que a presença humana é muito longínqua. No sítio arqueológico de Lagoa Santa estão as segundas datações arqueológicas mais antigas do Brasil. Lund é considerado o pai da arqueologia brasileira por seu pioneirismo nos estudos da mastofauna pleistocência de Minas Gerais, pelo descobrimento e estudo do "Homem da Lagoa Santa" e por ter identificado cerca de 150 espécies de mamíferos fósseis.
Cacheira da Fumaça (Carrancas - MG)
Chafariz São José de Botas (Tiradentes - MG)
Cassino do Lago (Lambari - MG)

SÉCULO XIX E XX

Recessão econômica e revolução reprimida. Minas inaugura o século XIX em relativa decadência. Mas é na adversidade que o homem cresce e os mineiros souberam aproveitar bem as lições do passado.

Em 1800 já era o estado mais populoso do país, com forte organização político-administrativa. A grande população soube responder à vocação política e teve papel importante nos principais acontecimentos do século. A economia deu uma guinada. Fábricas de ferro, técnicas inovadoras de mineração e tecelagem foram incentivadas. A agricultura desenvolveu-se a partir da terceira década, com a lavoura cafeeira. O café entrou pelo Vale do Paraíba, alcançou a Zona da Mata e se transformou no principal produto da província. O "ouro amarelo" dava lugar ao "ouro verde". Para escoar a produção foram construídas estradas, linhas férreas. Surgia a "União e Indústria", ligando Juiz de Fora a Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro. Era a primeira estrada com características modernas do país. O café seria o principal produto até o crack de 1929, quando a superprodução teve que ser queimada às toneladas. A agricultura mineira é forçada a se diversificar e a pecuária se estabelece como importante atividade econômica.
 Vila Rica, antiga capital de Minas (Ouro Preto atual)

Belo Horizonte (MG), primeira capital planejada do Brasil

Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira da América do Sul (Juiz de Fora - MG)
O estado tem hoje o maior rebanho bovino do país. Tudo sem esquecer a mineração, com a modernização das técnicas de extração e a descoberta de jazidas que recheiam as montanhas mineiras. Minas consolidava sua posição de vanguarda entre os demais estados da nação. Quando foi proclamada a República em 1889, Minas Gerais já era a segunda economia do país, atrás apenas do Estado de São Paulo. Sete anos depois seria inaugurada a nova Capital e a primeira cidade planejada do Brasil: Belo Horizonte.
Edifício Niemeyer, marco da arquitetura moderna (Belo Horizonte - MG)Matriz N.Sra. de Nazaré, do início do séc.XVIII (Cachoeira do Campo - Ouro Preto - MG) 
Além de seu poder econômico, Minas ainda conta com um grande patrimônio: a política. Aliás, política é considerada uma manifestação de arte pelos mineiros. Nos finais da década de 1920, o Estado institui o voto secreto, exemplo de democracia ainda não adotado no país. Muitos políticos de renome e presidentes saíram das montanhas para governar os rumos do Brasil. Diga-se de passagem: Minas Gerais é o estado que mais presidentes deu ao Brasil.

Casa da Ópera, mais antigo teatro em atividade da América Latina (Ouro Preto - MG)
Diamantina, terra do presidente Juscelino Kubitschek
Primeiro Instituto de Ensino Superior de Comércio do Brasil (Juiz de Fora - MG)

LIBERDADE TARDIA.......

O esgotamento das minas, a partir de 1750, fez recrudescer a ação da Coroa sobre a província. A metrópole não seguia critérios definidos, ora cobrava o quinto, ora cobrava fintas (imposto representado por uma quota comum), ora usando o sistema de capitação (cobrança anual de 17 gramas de ouro para cada minerador). Era comum na época tentar driblar o fisco. Ficou famosa a figura do "Santo do Pau Oco", onde as pessoas escondiam ouro, pedras e outros metais e minerais valiosos.


No ano de 1720 uma rebelião contra a criação das "Casas de Fundição" é duramente reprimida. Felipe dos Santos, seu líder, é morto para servir de exemplo a outros insubordinados. Foi um efeito perverso. A violência de sua morte foi a semente de um sonho acalentado com mais fervor a partir daquele momento: o da liberdade.
 Prisão de Felipe dos Santos (Museu Antônio Parreiras - Niterói - RJ)

A escassez fez com que os mineiros se dedicassem a outras atividades. Pequenas fundições de metais e a tecelagem se desenvolveram. A Coroa reage energicamente e em 1785 baixa decreto proibindo a instalação e extinguindo as manufaturas existentes. Um promissor crescimento industrial é interrompido. A população teve que optar pela agricultura e pela pecuária.
Bandeira de Minas Gerais, inspirada nos ideais de liberdade


Tiradentes Esquartejado - Quadro de Pedro Américo
 
No que se acreditava ser o "apagar das luzes" do século XVIII, uma chama brilhou intensamente, inscrevendo Minas no cenário político do Brasil. A Coroa pretendia instituir a Derrama em 1789, uma forma de cobrar de todos os trabalhadores uma quota de ouro que garantisse os seus ganhos, independente de quanto isto iria pesar no bolso de todos. Esta foi a gota d'água para que um grupo de homens se levantasse contra os governadores fanfarrões e os desmandos da Metrópole. Queriam liberdade, conhecimento, igualdade. Queriam a independência do Brasil e criação da República, influenciados pelo pensamento filosófico da Europa e pela recente Revolução Francesa (acontecida naquele mesmo ano). Na época, os defensores do domínio português preferiram difamar o movimento, dando-lhe nomes como Inconfidência, Conjuração, Traição.
A bandeira da nova nação teria um triângulo vermelho representando a Santíssima Trindade, tendo a frase latina "Libertas quae sera tamem" (Liberdade ainda que tardia) a sua volta. Esta bandeira representa hoje o Estado de Minas Gerais. O movimento foi delatado por um traidor, Joaquim Silvério dos Reis, que devia à Coroa e obteve o perdão da dívida.
A maior parte de seus integrantes do movimento foi condenada ao exílio. Somente o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi condenado à forca, sendo executado no Rio de Janeiro em 1792. Seu corpo foi esquartejado e as partes expostas em vários cantos de Minas. A cabeça decepada foi fixada num poste em plena Vila Rica, no local onde hoje existe um monumento em homenagem ao mártir. Tiradentes profetizou que em dez, vinte ou cem anos não haveria como evitar o ideal de liberdade. Ele estava certo: o Brasil se tornaria independente em 7 de setembro de 1822. E Minas foi decisiva para que isso acontecesse.
Casa do padre Toledo, onde se reuniam os inconfidentes (Tiradentes - MG)
Antigo Palácio do Governador (Ouro Preto - MG)
Esta gameleira abrigou a perna decepada de Tiradentes (Conselheiro Lafaiete - MG)